
CATÉLICOS*
Encontravam-se à tarde, como de costume. O vento gostoso carioca batizava-lhes os rostos como a dizer: fiquem!! E era sempre assim. Ficavam. Como não aceitar o apelo, da brisa mansa e da amizade cultivada entre ervas daninhas do tempo e da distância?Amigos. Sim, amigos de muitas datas, sempre amigos à tarde. É verdade que a escolha do momento não era realmente uma escolha. Careciam de outro horário para trocar e aprender um com o outro. Mas não reclamavam. À tarde era bom. Entre um refrigerante e um salgado folhado delicioso ou em conversas regadas a cigarro e baforadas de café, substâncias pretas e brancas, grises e etéreas se misturavam ao cotidiano partilhado mesmo que só por meia hora. Eram tão diferentes e tão próximos... tão vespertinos e íntimos... unos acompanhados pois não eram só os dois, outros vinham...e se intrometiam na conversa. Sim, porque a conversa era deles, de mais ninguém... os outros é que se imiscuíam : Foucault, Freud( Fróide ou Frêudi?), a barata de Clarice ou uma frase espirituosa do Dândi por excelência, Wilde, hoje e sempre, amém.
E o tempo fluía... ir embora pra quê?? Tem filho em casa? E o sonho acordado de sonhar a vida fluía, entornava, se espalhava... entre lembranças de uma outra vida tão próxima, essa mesma , mas que parecia tão distante...( lá se vão memórias jogadas).Rir de uma frase que só os dois entendiam e que a outros soava pura idiotia... Que delícia!Gozar mentalmente não é pra qualquer um! ...e como gozavam a presença um do outro, o olhar cúmplice e as confissões que só o eram por força da palavra, pois um quase adivinhava o pecado íntimo do outro, ria por dentro de si para si dizendo: ele não me engana!
E sempre assim, nessa troca quase vampiresca, foram envelhecendo sem contar os anos... e os encontros continuavam... Os segredos partilhados e os cabelos brancos se avolumavam na cabeça e as forças já eram outras e a vida já sorria meio banguela, mas, ainda era a vida. As idéias desgrenhadas se enovelavam e os enredavam fio por fio, numa teia maravilhosa de semelhanças dessemelhantes, mas sem conflito, por incrível que parecesse. Um sentia frio, o outro calor, mas o calor do outro, por uma força incomensurável de aquiescência, tornava-se o frio do outro e vice-versa. Assim. Só por ser. Só por estar. Ainda. Só por. E não questionavam... porque haviam aprendido que a pretexto de discussão muitos se ofendiam e cagavam na amizade perfumada. Preferiam os bons odores da palavra comedida ao futum de ter sempre a razão.
Riam-se de si mesmos e dos outros, venenos escorriam, afinal quem não fala de ninguém?? A gargalhada alta, a plenos pulmões de um ,competia com o gesticular histriônico do outro entre caras e caretas. E se olhassem de cara feia? Deixa, é divertido. Continuavam. Um chá gelado ( vamos pedir mais um?) contrastava com a conversa quente ou com a lágrima morna contida .As viagens do amigo eram mais que viagens , pura divagação santa, quase êxtase católico, pulsando na veia judaico- cristã.A conversa era o momento de comunhão, os livros e poetas transubstanciavam-se em hóstia sagrada, o sacerdote era o coração apaixonado e o templo , o bistrô do Paço Imperial!
Sem trocas materiais, aquelas em que brilha um metal no meio, a amizade se expandia em desejos tão desejáveis que a alma mesmo triste sorria, por que ela sabia com quem podia contar , as vezes até três ,somente , mas contava. Não, não terminava, nem a palavra de carinho nem o olhar de dois meninos levados de escola que escondem um maço de cigarros dentro das calças para o inspetor não ver. Davi e Jônatas sem militância. Sem provar do amor que não ousa dizer o nome, pois esse amor que expressavam abertamente dizia em bom português a que tinha vindo, ido e voltado. Era amor apenas. Só. Sem mãos ou pernas ou bocas ou línguas. Era enlace de cigarros, cafés, cervejas e poesias escritas em papel de mesa de bar. Era amor de estar sentado em uma mureta de terraço, de sugar um cigarro diante do olhar estupefato do outro, vendo o verniz católico derreter e surgir uma base mais humana, não tão dogmática ou careta. Era amor de viagem de ônibus, quantas delas, rindo, conversando enquanto a paisagem assistia os dois e pensava: queria isso pra mim...
Era amor da surpresa esperada, do cigarro escondido que surgia de repente, do nada, de um bolso ou bolsa, mochila ou mãos como de mágico, no meio de uma conversa banal... Era amor de “estou cansado” e outro só dizer “hum-hum... sei o que é isso”. E parecia um diálogo de duas horas, bem decorridas, sem cobranças do tipo “por que - você não -me-ligou-ontem-se-eu-deixei-recado”.
Era amor sim, a despeito do despeito e com “respeito é bom e eu gosto”. E como se gostavam! E como se respeitavam! Era amor de trocas de carícias literárias e místicas. Os Jesuses se misturavam, o católico, o protestante e o espírita num evangelho poli dimensional, durante os debates e embates que na verdade eram afagos no ego um do outro.Era amor de sonho e de um pouco de dor e de morte também, de um segredo de tubo de ensaio , bem guardado e trancafiado.
Era amor de olho cúmplice e de mão amiga, de ferida aberta sem machucar, amor camoniano-platônico, mas com Renatos Russos a se intrometer, até quando o sol batia na janela do quarto e já era dia: “meu Deus daqui a pouco tenho que trabalhar...”
Era amor de ver um homem se tornar menino e um menino tornar-se homem, às vezes, paradoxalmente , ao mesmo tempo .E de ter medo de ser gente grande entre gente pequena .Aquela que a gente não deve pronunciar o nome que dá azar.
Era um amor de crítica literária barata do tipo: você tem que escrever pros outros não só pra você! Enquanto o outro debochava e dizia: Problema! Se os outros não entendem, entendo eu!E riam-se.
Era amor de sangue espiritual partilhado de duas almas geradas no ventre do Cosmo e paridas por acaso, por corpos distintos e lugares nem tão assim.
Mas as leis de atração da metafísica, da metalinguagem e da metanarrativa meteram os dois num mesmo balaio, com menos gatos que o esperado, mas nem por isso mais tranqüilo.
E o amor que conheceram ultrapassava o impassável, o imexível (aquele que o político inventou), o insexável (!?) amor que até namorada desconfiava não existir, por tão distante ser do amor domesticado , de coleira e banho tomado ...
Era um amor de tarde, que atravessava as noites e os dias que cobrava simplesmente aquele momento só, que fosse pra sempre, que ficasse, que não fosse...
Era amor porque era o ápice de ser humano nu e cru por dentro, sem roupa de hipocrisia, nem sapato de conveniência.
O ápice do amor está em desejar o desejo do outro. Pode ser, pois um dia alguém disse.
E eles concordaram sem falar...
E assinaram sem perceber...
Com sangue, lágrimas,cigarros, café e cervejas.
* neologismo utilizado pela primeira vez no ano de 2003, por um amigo que queria de alguma forma encontrar uma palavra pra definir a pessoa que mistura posturas católicas e evangélicas. A palavra não vingou, é verdade, mas o conceito permanece pra quem quiser utilizá-lo entre baforadas de cigarro e citações da bíblia. Amém.
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